segunda-feira, 4 de agosto de 2008

SEDUÇÃO PÓSTUMA



Deitada no chão, ela não se movia. Eles a rodeavam, cheiravam-na, procuravam roçar-lhe o corpo com a tensão de seus pênis eretos. Disputavam selvagemente entre si a oportunidade de a possuírem.
Atropelada há pouco, a cadela no cio só tinha agora a lhes oferecer o odor de sexo.

NÃO IMPOSSÍVEL



Era difícil, não impossível, e aconteceu: o irmão, retornado à casa dos pais , após 20 anos de ausência, apaixonou-se pela irmã, que deixara bebê quando partira e agora reencontrara mulher.
Era difícil,não impossível e aconteceu: a irmã, bebê quando o irmão partiu, apaixonou-se por ele agora que só veio a conhecê-lo homem.
Era difícil, não impossível, e aconteceu: casaram-se longe dali.

SONHOS RECORRENTES




- Senhor Antonio!
Dirigindo-se direto do gabinete do psiquiatra para a porta externa do consultório, não escutara o primeiro chamado da recepcionista. Acabara de ouvir, do médico a explicação- com a qual não concordara- de que seus sonhos recorrentes, nos quais sempre aparece em público sem alguma peça do vestuário, significam sua incapacidade de terminar projetos iniciados.
- Senhor Antonio, não vai marcar a próxima consulta?
Não respondeu. Decidira interromper o tratamento.

A CRUZ DO ARI



As cruzes à beira das estradas exortam-nos a orar pelos que ali morreram . Há cinco anos, ele orava por Ari, cujo nome aparecia na cruz branca, na pequena ravina,vista do ônibus que o conduzia ao trabalho.Nas férias, não fazia tal percurso e, justo nestes períodos, coisas ruins começaram a ocorrer: doenças, dificuldades financeiras, atritos familiares.”É o morto cobrando, com infortúnios, a falta das preces nestas épocas. Faça um ritual de apaziguamento no local”, explicou a amiga médium. Por isso, portando oferendas, ele está ali, pela primeira vez . Transpõe a pequena elevação entre a estrada e a ravina e descobre: não havia cruz. Parecia assim porque o restante do braço, um travessão, ficava escondido, por arbustos, de quem o via da estrada. Na verdade, era uma placa, que dizia: Sítio do Ari.

A GRANDE OPORTUNIDADE



- E aí, vai me dar aquela carona hoje?
Quando a garçonete , que cortejara sem sucesso por alguns anos, sentou-se a seu lado e, veludo na voz , fogo no olhar, fez a pergunta, ele teve a certeza de que a grande oportunidade, aguardada havia pelo menos dois meses, chegara .Tirou do bolso da calça um envelope, ao qual estava preso ,por clipe, um bilhete, deixou-o sobre a mesa e, sem dizer nada, retirou-se.
Recuperada do instante de pasmo, a garçonete leu o bilhete: “ Quando eu queria, você não queria; agora que você quer, não posso”.
Dentro do envelope, resultados de exames médicos.

O ÚLTIMO DOS VALENTÕES



Dito Maluco bateu em Braulão; Nego Oscar derrotou Dito Maluco; Severino Pancada arrebentou Nego Oscar. Revezavam-se todos os anos os valentões da cidade até que surgiu Zé Alemão. Desafiantes dali, desafiantes de fora, ninguém conseguia derrotá-lo. Garantido por aquelas mãos patas de tigre, seu reinado parecia não ter fim, até que um dia amanheceu morto, na própria cama, com a cabeça despedaçada a golpes de chave inglêsa. Fora a esposa, Dinaura, que aproveitara-lhe o sono para livrar-se de uma vida de maus tratos. Legítima defesa, determinou o delegado. Depois ninguém desafiou Dinaura, pois a valentia não desafia o desespero.

AMPLAS POSSIB ILIDADES



Como previra, o jovem cego aceitou ser seu parceiro homossexual ativo, recebendo, para isso, por mês, uma quantia pelo menos três vezes maior do que ganhava vendendo doces na praça . Não lhe disse,é claro, que o escolhera por absoluta necessidade de segurança. Afinal, decidira entregar-se aos prazeres da homossexualidade já maduro, com esposa, três filhos adolescentes e projeção social . Com garotos de programa ou gays, os riscos de extorsões e chantagens sentimentais e, em consequência, de um escândalo, seriam enormes.Um cego nunca o veria, jamais reconheceria seu carro, ou saberia para onde iriam.
O jovem, por sua vez, via tal proposta superar todos seus planos de vida. Afinal,quando decidira, meses antes, fingir-se de cego para melhor vender seus doces , não imaginara tão amplas possibilidades.

VINGANÇA



Era casada com Italo e tinha um amante, Marcos. Mas, acreditava, um não sabia do outro. Para o marido, era fiel e,para o amante, solteira. Agora, estava esperando Italo em um bar. Ele entrou e- surpresa- acompanhado de Marcos .Esperou o escândalo. Não houve. Calmamente,após os dois sentarem, o marido disse que decidira assumir a homossexualidade e que o homem a seu lado seria seu novo companheiro. Por isso, pedia o divórcio.A mulher entrou em uma espécie de convulsão, faltou-lhe ar, teve um princípio de desmaio. Os dois homens, após pedirem aos garçons que a acudissem, sairam do bar.
- Não disse que essa vingança seria melhor do que matá-la?- disse um deles
Despediram-se e cada um foi tratar da própria vida.

quarta-feira, 25 de junho de 2008

BOMBINHAS



A bombinha de São João, jogada no palco pelo menino, assustou a cantora. Em pânico, agarrou-se ao segurança, que a tomou nos braços e carregou-a até o camarim. Era o primeiro contato físico entre ambos, nascendo, dali, o romance que levou, meses depois, o marido e empresário dela a matá-la e suicidar-se. Era a isso a que a mãe do menino se referia quando o alertava: " pára de jogar bombinhas senão ainda vai causar uma tragédia?"

segunda-feira, 23 de junho de 2008

DESENCONTRO




Em final de mandato ( deixaria o governo dali a uma semana), o presidente esteve em sua cidade natal, que não visitava havia 15 anos. Atendia às exigências da agenda de despedidas elaborada pela assessoria de marketing. Nem durante, nem após o discurso no palanque da praça, viu, do outro lado da avenida, meio apartado da multidão, Wanderley, o carrinheiro, companheiro de antigas jornadas políticas ( quantas vezes não juraram, juntos, combater e acabar com as injustiças sociais?) . Acabou de discursar , foi levado, às pressas, para o aeroporto, rumo a outro compromisso. Wanderley também não o viu, preocupado que estava em recolher, antes que outros carrinheiros o fizessem, a sucata deixada pela multidão.

O JACARÉ



- Que prédio enorme!Nossa, veja quanto carro! Que ponte grande! Aquele trem vai entrar debaixo da terra?
Saída do pantanal matogrossense pela primeira vez, para visitar a irmã, ela não conseguia conter-se ante as surpresas da cidade grande. Os demais passageiros do ônibus olhavam-na, divertidos, ou com expressões condescendentes. O cunhado, que fora pegá-la na rodoviária, não escondia certo constrangimento. Então, o coletivo parou. Carros de emissoras de TV , viaturas policiais e dos bombeiros atravancavam o trânsito. O motivo era o aparecimento de um jacaré no poluído córrego entre as pistas. Todos desceram para ver as tentativas de resgate do animal. O cunhado chamou-a para ver também, mas ela resolveu permanecer no ônibus."Que graça tem um jacaré?”, pensou.

segunda-feira, 16 de junho de 2008

PAR IDEAL


Ela, porque ficara com uma perna menor do que a outra e um braço imobilizado, o marido passou a rejeitar, até que se separaram. Ele, porque ficou com toda a face esquerda transformada em uma cicatriz, além de cego de um olho, teve seu noivado desfeito. Formariam um par ideal, mas a única ocasião em que estiveram juntos, no mesmo lugar e momento, fora no ônibus acidentado.

PARA E SEGUE O ÕNIBUS


PAra o ônibus. O homem que conferia um bilhete da loteria, levantou-se de repente, desceu e dirigiu-se correndo ao telefone público. Levino, no banco de trás, cutucou o colega ao lado.
- Vamos atrás do cara. Aposto que acertou os jogos e está avisando alguém da família . Tomamos o bilhete dele e estamos feitos.
Após dizer um palavrão e chamá-lo de "maluco delirante", o colega virou-se e continuou o cochilo interrompido.
Segue o ônibus. Some da vista o homem que , no orelhão, pede à esposa para vir pegá-lo, de táxi, naquele local. Ganhara na Megasena e tinha medo de ficar andando por aí com o bilhete premiado.

J.A.



Todos os prédios daquela rua, feitos um século atrás, traziam, escrito em seus frontispícios, o ano de construção , uma prática dos mestres construtores da época.Aquele, porém, ao lado da data, MCMXX, mostrava também as iniciais J. A. Desde menino, aquilo o intrigava e, adulto, com posses e tempo para isso, resolveu identificar o homem que,em tempos idos, recusara-se, pelo menos parcialmente, a ficar anônimo. Gastou anos e dinheiro na investigação para descobrir, ao final, que se tratava de uma empresa: Jardim de Alá.

sexta-feira, 13 de junho de 2008

INCERTEZAS



Naquela noite, surpreenderam-se, no mesmo motel, com os respectivos amantes.Usaram de igual justificativa:
- Ele ( ela) é só meu ( minha) amigo ( amiga). Acompanhou-me até aqui apenas para servir de testemunha de seu adultério.
Até hoje, nenhum dos dois tem certeza da verdade.

DAVI E GOLIAS



Desde criança fora grande , forte e feio.Três vezes mais do que a média. Jamais gostou de agredir , tampouco precisou fugir de alguém. Tamanho, força e feiúra foram-lhe ataque e defesa na vida. Divertia-se com o medo provocado por seus saltos, urros e caretas. Adulto,no exército de seu povo, tornou-se uma lenda , à qual os inimigos, atemorizados, rendiam-se sem lutar. Até que um dia um garoto, destemido, e a quem não pretendia fazer nenhum mal, matou-o com uma pedrada.

sexta-feira, 30 de maio de 2008

O show dos desencontros



Alguém, por acaso, vira primeiro, chamara os outros, e, agora, os garotos estavam ali, revezando-se a olhar, por um buraco na porta de aço fechada, o homem falando alto, sozinho, no outro lado do salão vazio. Louco? Bêbedo? Não. Era o palhaço desempregado, ali abrigado há dias, imaginando, em voz alta, o show que daria se houvesse, no outro extremo do recinto, uma platéia de garotos.

PRESIDENTE X



Após dois anos confinado a uma ilha perto da capital, por motivos de segurança, de acordo com a assessoria militar, o presidente X decidiu fugir. As telas de TV do palácio insular, até agora seus únicos meios de contato com o exterior, sempre diziam que o país estava bem. Verificaria isso pessoalmente, . Fugiu de noite e, de madrugada, já estava na praça da capital. Uma grande estátua chamou-lhe a atenção. Aproximou-se . Ela o retratava. Leu o texto da homenagem: “ Ao nosso inesquecível presidente X, falecido em ...” A data era de dois anos atrás.

MEUS ADMIRADORES



Imagino o que pensam e falam entre si, naquele velho carro amassado, enquanto olham para meu automóvel importado do ano. Já fui como eles. Com os amigos dos tempos ruins, a caminho do trabalho, em velhos calhambeques, quantas vezes não apontei maravilhas ao lado e perguntei: “Já pensaram , nós num daqueles?”
Agora reduzem a velocidade. Vão querer emparelhar, de novo, quem sabe para admirarem algum detalhe, talvez as magníficas calotas de liga leve; ou então os parachoques cromados.  Param na minha frente, por quê? Saem do calhambeque, por quê? Usam revólveres, por quê?

terça-feira, 20 de maio de 2008

CUIDADO DE MÃE



Objetivo do processo na Justiça: impedir a derrubada da árvore na alameda 14 do cemitério.
Justificativa oficial: preservação do verde.
Justificativa verdadeira, não constante dos autos: mulher teme que, sem a árvore, o sol de verão bata muito forte sobre a campa do filho.

MEA CULPA



O homem falava à esposa, irmãos , filhos e cunhados, reunidos na sala:
- Devido à sua mania de usar parentes como modelos de personagens e inspirar-se em histórias da família para enredos de seus livros, nós o afastamos de nosso convívio.Não tinha amigos e acredito que viveu uma existência muito solitária estes anos todos.
- Realmente, exageramos - concordou a mulher. O leitor comum não nos conhece,não poderia identificar-nos nas histórias .
-Quem de nós irá  pedir-lhe os  convites para a festa do Prêmio Nobel de Literatura que ele vai receber?-  indagou a filha mais nova.

ALEGRIA DO CIRCO



Nunca os palhaços foram tão engraçados; os malabaristas tiveram tanta ousadia, os trapezistas mostraram-se tão corajosos, as bailarinas, tão graciosas e o mágicos , inacreditáveis . Raríssimas vezes o diretor artístico, apresentador e dono do circo sentira-se tão realizado por autorizar um espetáculo .
Invadido na manhã daquele dia por famílias despejadas de uma favela, o pavilhão, pela primeira vez em anos, tinha lotação completa.

sexta-feira, 16 de maio de 2008

JUSTIFICATIVA



Show musical no presídio, a cantora famosa e linda apaixona-se pelo detento; consegue que ele ganhe liberdade condicional e passam a morar juntos. Seis meses depois, ele briga com a mulher, sai de casa, perambula semanas pela cidade, furta e assalta, até que é preso novamente. Ao companheiro de cela, que, inconformado,indaga-lhe por que desprezara a chance de uma nova existência, justifica::
- Vida de casado é ruim . A gente não tem liberdade.

CONSTÂNCIA



Consideravam-na a pior pessoa da família: mal educada, disssoluta, desobediente. Todos a detestavam por isso.
Passadas as décadas, vulneráveis - irmãos, mãe viúva, sobrinhos- era a única que mantinha energias e os socorria . Passaram a detestá-la mais ainda.

terça-feira, 13 de maio de 2008

A DISPUTA



Suas brigas atingiam níveis paroxísticos. Uma ferrenha disputa para ver quem ofendia mais . Começavam com palavrões, terminavam em quebradeiras. Naquele dia não foi diferente:
O secador de cabelos dela foi o primeiro objeto a ser quebrado, seguido do computador dele. Depois, o celular dela e o mp3 dele. Então surgiu, assustada, na sala, a garotinha, filha dela, enteada dele. O homem não hesitou em atirá-la pela janela do apartamento.
- Ah, é?!
A mulher foi ao quarto do bebê, filho dele, e também atirou-o pela janela. Perdeu a disputa. Tanto o menino, como a menina, eram filhos dela.

CABELOS LINDOS



Os cabelos da recém-colega, dourados, eram lindos e a vontade de acariciá-los, intensa e quase incontrolável. Naquela noite e esquina, à sós por instantes, aguardando a chegada de uma amiga comum, ele apelou para o truque:
- Fica quieta. Tem um inseto preso em seus cabelos e vou tirá-lo.
A jovem deu um grito desesperado, tirou a peruca, jogou-a ao chão e afastou-se, olhos arregalados.

A PENA



Como pena pelos pecados cometidos na existência anterior, teria, em sua vida nova, o belo, o agradável, o criativo, o emocionante, o espetacular, o gratificante às costas, não lhe sendo permitido, sequer, vê-los de esguelha.. O confuso, o irracional, o desarmônico, o desconhecido, o problemático ficariam à sua frente, cabendo-lhe, além disso, evitar que se tornassem incontroláveis.
Foi condenado a ser  um desses policiais que, de costas para o campo, vigiam torcidas em partidas de futebol.

AVISOS DA SORTE



Pedro entrou na lotérica, marcou os seis números no volante da megasena, enfrentou a longa fila rumo ao guichê de apostas e, prestes a ser atendido, descobriu que tinha esquecido o papel no balcão . A seus pés, jogado no chão, um volante preenchido. “Pode ser um aviso da sorte”, pensou. Recolheu o volante do chão e apostou com ele.
Miguel , meia hora depois, entrou na mesma lotérica e viu o volante esquecido por Pedro no balcão . “Pode ser um aviso da sorte”, pensou. E decidiu usá-lo.
Nenhum dos dois foi premiado.

IMPRENSA E PODER



- Senhor prefeito, pedi esta audiência para saber por que, transcorridos três anos de seu governo, meu jornal não recebeu, até agora, nenhuma verba publicitária da prefeitura, enquanto o jornal do Rochedo, meu rival, sai sempre com anúncios oficiais.
- Caro Ramos, você sabe como o Rochedo é perigoso. Mal caráter, chantagista, tendencioso e difamador. É capaz de qualquer retaliação quando tem interesses contrariados ou seus adversários são atendidos. Exatamente o oposto de você, que sempre se pautou pela ética e neutralidade, não misturando interesses financeiros com os objetivos do bom jornalismo.
- E é por isso que estou sendo punido?

sexta-feira, 9 de maio de 2008

GRAN SUPREMO



Na frente da porta:
- Sim, senhores, sei que está demorando uma resposta do Gran Supremo sobre o pedido de entrevista coletiva. Mas, até neste momento difícil,em que se recupera de um ataque cardíaco, ele é um grande homem e exerce sua autoridade de maneira incontestável.Quis ficar sozinho esta manhã e determinou que ninguém entrasse no quarto sem que ele chamasse.E, como sempre, vamos todos obedecê-lo, inclusive vocês, jornalistas. Assim é e assim sempre será.
Atrás da porta:
“ A dor no peito voltou e está aumentando. Não consigo mexer-me, nem falar, estou sufocado! Alguém precisa entrar logo aqui!”

SEM MISERICÓRDIA



Madrugada, silêncio, mas os policiais tinham certeza de que eram observados. Por trás de portas e janelas havia testemunhas anônimas de que Pinguinha fora atingido pelo único disparo da perseguição. Por isso, impossibilitados de dar o segundo tiro, o tiro de misericórdia, esperavam ali, há duas horas, que o marginal morresse, para que pudessem chamar o socorro médico.

terça-feira, 6 de maio de 2008

O DEUS DAS FORMIGAS




Antes de lavar a louça da noite anterior, viu, na pia, milhares de formigas sobre restos de comida. A metáfora perfeita da relação entre Deus e os homens, pensou. “Essas formigas consideram-me deus. Afinal, sou incompreensível; não conseguem entender sequer meu formato. Sabem que existo por causa dos movimentos, da voz, entre outros sinais. Meu gigantismo leva-as a supor que criei tudo o que existe. Acham-me bom, afinal, de onde vem a comida sobre a qual atiram-se todos os dias”? Após ouvir dele tais conclusões, a esposa discordou:
- Você,deus das formigas,é diferente e melhor que o Deus dos homens, criador de maremotos, terremotos e vulcões.
- Bem... antes de ensaboar a louça, abri a torneira da pia e tudo- restos de comida e formigas- foi pelo ralo.

O CASTIGO DE ROZALÁ



Eles viram quando o homem justo Rozalá, que o Rabino ressuscitou, passou do outro lado da rua, cabisbaixo.
- Ele não parece muito contente.
- Lógico! Depois do castigo que recebeu, o que você queria? Que saltitasse?
- Castigo? Desde quando voltar do outro mundo é castigo?
- O Rabino não ensina que é no outro mundo que os justos têm a verdadeira vida ? Ressuscitado, Rozalá foi condenado à morte por mais tempo.

segunda-feira, 5 de maio de 2008

PORTA DE BANHEIRO



A operação contra atos de vandalismo nos sanitários públicos fizera o primeiro flagrante: Arão da Silva, 32 anos, fora surpreendido no momento em que rabiscava a porta de um banheiro. Evangélico, há semanas dedicado a uma campanha de moralização dos costumes, ele só tivera tempo de escrever, no pequeno espaço que encontrara em meio às dezenas de inscrições pornográficas, o início do salmo 34: “ O homem justo sofre nesta vida”.

CÁLCULOS DE GOLEADOR



Tomando por base as partidas entre sua rua e as outras ( os jogos-contra), ele tem quatro gols, Didoca, oito. Bem, mas os jogos no campinho, só com o pessoal da sua rua, também são importantes, principalmente aos domingos,quando todo mundo vai e é preciso fazer um torneio com três times. Certo, mas mesmo aí o Didoca tem 15 gols e ele oito.E se forem somados os gols feitos nos dias de semana? É verdade que, nestes dias, o Didoca não pode ir ao campinho porque precisa, depois da escola, ajudar a mãe na quitanda. Problema dele. A coisa, então, está 16 a 16.
- Disputa emocionante pela artilharia do campeonato, torcida brasileira!

AGONIA



- Uma mulher destas dá até uma agonia na gente!
Costumava dizer isso toda vez que passava uma mulher bonita e, por isso, recebeu o apelido de Agonia. Feio, desengonçado e tímido, já chegara aos 40 anos e nunca tivera namorada, apesar de ser um sujeito trabalhador, honesto e sem vícios.Até o dia em que Luzinete, recém-chegada de Alagoas, viúva, mãe de três crianças, demonstrou certo interesse por ele. Antes de qualquer intimidade, porém, conheceu o carpinteiro Abdon, melhor apessoado e afastou-se de Agonia que, desiludido, deu um tiro na cabeça. Morreu instantaneamente. Sem agonia.

POSSIBILIDADES DE VIDA



- É possível haver formas de vida em outros planetas?- perguntavam os alunos.
Respondia o professor:
- O universo tem milhões de galáxias e bilhões de planetas. Mesmo assim, não acho possível.A não ser que haja seres que consigam sobreviver comendo plantas, animais, respirando ar, bebendo água, essas coisas...

quarta-feira, 30 de abril de 2008

ONI(M)POTÊNCIA DIVINA



Não foi Descartes quem disse que , se algo tem uma falha, dá-nos o direito de duvidar dele por inteiro? Baseado nisso, Evaldo duvidava da onipotência de Deus.
- Existe pelo menos uma coisa que, com certeza, Deus não pode fazer.
Para provar a tese, levou seus colegas da academia filosófica à catedral e, em frente do altar,e, em voz alta , fez o pedido , a seu ver, irrealizável pela providencia divina:
- Quero ser Deus!

DIÁRIOS IMAGINÁRIOS



Se tivesse um diário, ele escreveria o seguinte: “ Passei 30 anos desejando-a, querida vizinha, mas nunca tive coragem de falar-lhe, sequer de olhá-la. Eu a possui apenas mentalmente, gozando de fato em incontáveis masturbações. Não quis nenhuma outra mulher; morri virgem, mas satisfeito sexualmente”.
Se ela tivesse um diário, escreveria o seguinte: “ Tive muitos homens em minha cama, vizinho; e mulheres também. Gozei, de fato, de todas as maneiras possíveis, mas, sem nunca conseguir sua atenção, morri frustrada sexualmente”.

JULGAMENTO



- Esse cara matou e estuprou seis mulheres.Vamos matá-lo aqui mesmo.
- Não. Somos policiais e temos que cumprir a lei. Ele tem direito à defesa.
- As mulheres que ele matou não tiveram.
- É um psicopata, sem noção do sofrimento que infrige.
- Quando nós o cercamos, ele se entregou sem resistência. Por quê?
- Ora, porque temia que o agredíssemos ou o matássemos.
- Então ele tem noção do sofrimento que lhe poderia ser infrigido ?
Na manhã seguinte , o homem, morto a tiros, foi achado no meio da mata.

terça-feira, 29 de abril de 2008

FUROS



O editor-chefe decidira ter, com o editor de polícia, uma conversa séria sobre os furos que o jornal levava da concorrência.. Eram amigos, por isso convidara-o a ir a seu apartamento, onde morava sozinho. “ Parece que todos os jornais sabem as coisas antes da gente”, dissera, ao fazer o convite.
Chegando ao apartamento, o editor de polícia tocou a campainha várias vezes. Não sendo atendido, empurrou levemente a porta, que cedeu ao toque. Abriu-a e viu, no chão, o editor-chefe, morto.
- Alô! É da redação? Rapaz, o Osmar acaba de morrer! Parece ter sido um enfarte. Quem me disse? Ninguém. Fui o primeiro a saber.

segunda-feira, 28 de abril de 2008

ANTIKAFKA



Amanheceu, naquele dia, transformada em um ser humano. Sem as oito pernas e asas, não conseguia andar rente ao chão, subir pela paredes, tampouco voar. Sem antenas, não podia comunicar-se com as outras. Manteve-se, por isso, encolhida a um canto da caixa de esgotos. Todas evitavam-na horrorizadas, ou por medo ante um inimigo tradicional, mesmo pequeno, ou por sua aparência repulsiva. À noite, suas duas únicas pernas e dois braços impediam-na de subir pelas tubulações gordurosas. Comia apenas restos, deixados pelas demais. Não conseguiu adaptar-se ao lugar, à solidão, tampouco resistir à fome e à umidade. Morreu dias depois. Apodreceu e foi comida pelas semelhantes.

TRAUMA



Após situações traumáticas, crianças costumam ter comportamentos estranhos, explicaram os sábios aos milionários pais daquele menino que permaneceu um ano sequestrado, em vila do interior . Eles só não entendiam o real significado das palavras que o menino, entre longos períodos de silêncio, repetia:
- Pipa, fubeca, mão-na-mula, pião, bafo, salve-o-amigo, malha, taco, garrafão, queimada.
Enquanto, pela janela da mansão, olhava , saudoso, o horizonte.

A FOTO DE HITLER



- O autógrafo do Hitler é que torna esta foto tão valiosa. Além disso, tem uma história interessante: foi tirada em 1936, em Berlim e pertencia à família de uma das crianças que aparecem ao lado do fuherer. Ao final da guerra, já adulta e temendo ser vítima de alguma acusação de nazismo, ela decidiu manter a foto escondida, o que ocorreu por 50 anos, até seu falecimento recente. Precisando de dinheiro , uma sobrinha decidiu vendê-la. Foi assim que a adquiri, na Alemanha e a trouxe para o Brasil. Ela resistiu ao tempo, à. distância e ao medo.
- Vou comprá-la.
Após pagar, o judeu Samuel Rabinovich, diante do antiquário atônito, rasgou a foto em pedacinhos.

DEPOIS DO ASSALTO



O policial era a fúria. Olhos em chamas, gesticulava energicamente o braço esquerdo, enquanto o direito, abaixado rente ao corpo, segurava o revólver. Incitava a que se aproximassem homens , mulheres e crianças que , à distância, olhavam os dois homens algemados, ensanguentados e deitados no chão da lojinha que haviam tentado roubar, momentos antes.
- Gente assim merece tudo de ruim. É tudo filho da puta.Quem quiser, pode bater. Não sejam covardes. Eu seguro qualquer bronca.
E houve quem, timidamente, desse tapa, pontapé e até cuspisse nos prisioneiros, enquanto os demais assistiam , impassíveis. Ninguém tinha raiva; todos tinham medo.

terça-feira, 22 de abril de 2008

POBREZA VERSUS DESEJOS



Casal muito pobre quando veio do nordeste, foi morar em uma quarto de pensão na zona do meretrício. De noite, ao voltar do trabalho como servente de pedreiro em uma obra, o desafio dele tem sido recusar oferecimentos de prostitutas. Ela, quando, por alguma necessidade, sai à rua, precisa driblar convites de homens.
Há algumas semanas, ele está desempregado e há dificuldade para encontrar colocação. A piora da situação financeira tem gerado o inevitável desgaste no relacionamento, com a mulher sempre evitando-o, queixosa da penúria.
Continuam, com intensidade, as propostas financeiras dos homens para ela e os convites das prostitutas para ele. Por isso, os demônios apostam: quem vencerá primeiro, a pobreza ou o desejo?

A FORTALEZA



Até o governador fez questão de ir à cidade ouvir as explicações do homem que tentara destruir, com uma bomba, a fortaleza quinhentista. Pois este homem, surpreendido pela polícia antes de acionar o artefato, era, nada mais, nada menos, que o professor Aristeu, a pessoa que mais se empenhara na restauração do monumento, cuja entrega solene à população fora marcada para dali a uma semana.
O professor explicou tudo. Disse que sua luta de 30 anos pela recuperação da fortaleza fora heróica. Ninguém o ouvia de início, ninguém ligava para a importância histórica do monumento. Enfrentou Deus e o diabo para fazer valer seus argumentos. Foi considerado louco, perdeu a saúde, o emprego na universidade, a família o abandonou. Mas nada o desviou de sua luta que, ao final, foi vitoriosa.
- A recuperação da fortaleza tornara-se minha única razão de viver. Ao atingir tal meta, decretei minha morte..

DEUS É JUSTIÇA




- Lembra daquele cara esquisito que apareceu no bairro, ficou alguns meses, e sumiu? Aquele com a capa de chuva, escrito “ Deus é justiça” nas costas?. Barbudo, com um prato de lata na mão? Que apareceu aqui um dia antes de matarem o Cirilo?
- Lembro. Vagueava de dia, sumia de noite. Não falava. Com fome, punha o prato sobre o balcão de um boteco e comia o que pusessem nele.Lembra quando sumiu?
- Claro. Foi no dia seguinte ao assassinato do Germanão, amigo do Cirilo ( os dois vieram juntos de Pernambuco, lembra?). Por falar nisso, quem matou aqueles dois?
- Ninguém sabe.Voltando ao “Deus ...”: sujeito esquisito, não?

sexta-feira, 18 de abril de 2008

PAPÉIS TROCADOS



“Aos dezoito anos, fugi de casa com um namorado que, por ser negro, minha família, rica e tradicional,não aceitava. Tivemos uma filha e nos separamos dois anos depois.Meu segundo companheiro, viúvo, tinha uma filha.Vivemos juntos por um ano, até que ele morreu.Desesperada, com duas crianças pequenas para criar, voltei à casa de meus pais, que aceitaram-me de volta, nas seguintes condições: diríamos que minha filha legítima era a branca, a negra era adotada. E assim foi. Mantive o segredo por décadas e só agora, ao sentir aproximar-se o fim, decidi redigir este texto,cujo teor não poderá ser revelado antes de minha morte . ”
Feita a leitura , pelo velho advogado da família, as duas irmãs olharam-se impassíveis.
- É só isso? Indagou a branca.
- Podemos ir embora agora?, perguntou a negra.
Beiravam os 70 anos . Vidas sem espaços para traumas.

OS DESCONHECIDOS



Homens, mulheres, crianças, jovens, velhos, dezenas, talvez centenas, estavam todos nervosos, até que ele apareceu. Então, perderam as inibições e acercaram-se dele, cumprimentando-o, abraçando-o, acariciando-o e agradecendo. Eram-lhe todos desconhecidos e, por instantes, ficou denorteado,não só com o assédio, mas, também, pelo fato de nunca ter estado ali antes.Mas, sentindo-se feliz como nunca, ele que sempre fora um solitário, retribuiu cumprimentos, abraços e carinhos. Por fim, dirigiu-se à jovem, a seu lado o tempo todo e que parecia diferente dos demais, e quis saber o que estava acontecendo.
-Lembra o costume que você tinha de, ao passar diante de um cemitério, escolher aleatoriamente uma tumba e orar por quem ali jazia? De acender velas em túmulos abandonados? De rezar Pais- Nossos ao passar por féretros, cruzes nas estradas, de vítimas de acidentes fatais? Os que tiveram os caminhos póstumos iluminados por suas preces estão aqui, agora, para iluminar o seu.